Não inviabilize: Melodrama real, filosofia cotidiana e atuação política em um podcast impecável

“Oi, genteeeee”
Contar e ouvir histórias é contagiante.
Sempre que alguém vai comentar sobre o podcast “Não Inviabilize” da psicóloga e comunicadora Déia Freitas, a pessoa começa contando como foi sua primeira vez com o canal. E olha que eu quase caio nessa pegadinha e começo este post assim. Mas, escapei a tempo.
Agora que terminei o parágrafo inicial, posso me render à tentação. Então, como diria a própria Déia: “vamos de história”.
Conheci o Canal “Não inviabilize” através de um aluno e amigo, roteirista em formação, que ama novelas e histórias bem contadas. Ele sugeriu que eu contasse sobre minha bem sucedida, mas nem sempre fácil, história de amor, cujos altos e baixos ele acompanhou de perto. Eu (como sempre e como muitos) resisti à indicação e levei um tempo para começar. Tendo começado, porém (como todos e todas) não parei mais.
A primeira vez que tive vontade de escrever sobre o canal foi para falar de como era incrível essa nova forma de entretenimento. De como, mesmo sendo tão atual no formato de podcast, o material me remetia às antigas revistas semanais ou mesmo programas de rádio que apresentavam uma dúvida de uma dona-de-casa desesperada, de uma jovem enganada ou de um amigo traído e pedia para leitoras e ouvintes darem seus conselhos. Era época das cartas enviadas por correio (com envelope e selo) ou das chamadas telefônicas, feitas às vezes em orelhões com fichas. Lembravam-me também, as histórias contadas por Déia, tramas Rodrigueanas e grandes melodramas, histórias ao mesmo tempo simples e pomposas.
Pois bem. Passou o tempo, e eu não escrevi.

Depois, ouvindo e divulgando o canal como quem espalha a palavra de Cristo, pensei em escrever sobre a importância desse canal ser conduzido por uma mulher como Déia Freitas, com seus princípios éticos, com sua experiência de vida, com sua coragem de se posicionar sem rodeios, sem meias palavras, sem nenhuma concessão à crueldade, ao preconceito ou a pensamentos tacanhos.
Sem jamais desrespeitar a opinião alheia, Déia deixa clara sua noção de justiça e, sem pestanejar, dá conselhos revolucionários e coloca machistas, racistas, transfóbicos, gordofóbicos e toda vara de porcos preconceituosos no lugar que merecem: no papel de ridículos. Porque, se as leis não são capazes de frear essa corja de seres humanos deploráveis que tem agido à vontade e com certo orgulho de suas monstruosidades, uma boa gargalhada e uma bem construída humilhação pública podem (como mostra a história) se tornar uma poderosa aliada na luta pelo verdadeiro bem comum.
Fiquei pensando, a essa altura, quão perigoso seria se alguém com desvios éticos, tivesse se apossado dessa ferramenta antes dela. Não sei (nem quero saber) se há algum produto parecido feito por gente reacionária. Penso no risco de termos uma legião de mulheres (que querem conselhos sobre suas vidas amorosas, sobre as opressões que vivem, sobre códigos de conduta e estética) sendo aconselhadas a aceitarem seus destinos, a entenderem que “a mulher é que edifica o lar” e que por isso deve fazer vistas grossas a traições, opressões e maus tratos; devem se dedicar a se arrumarem “direitinho” e realizarem procedimentos estéticos para serem mulheres dignas e belas. Se Déia Freitas fosse o equivalente às revistas “femininas” nocivas (que de femininas têm muito pouco) de grandes editoras, estaríamos em maus lençóis.
Pois bem-bem. Passou mais um tempo e eu não escrevi.

A essa altura devo confessar que mesmo tendo resistido durante alguns meses, acabei por tornar-me apoiadora do canal, tanto para ajudar (com muito pouco, é verdade) a equipe que Déia tem conseguido manter com o valor da campanha, quanto para ter acesso às histórias exclusivas e em áudio ainda não tratado nem editado. No começo, estranhei a dinâmica dos áudios brutos e a dificuldade de acessar os arquivos fora dos principais tocadores de podcast e preferia o material divulgado gratuitamente. Ontem, porém, aconteceu o “ponto de virada” (como chamamos em roteiro) na minha jornada de escrever este post. Eu ouvi o episódio TURBANTE, ainda exclusivo para apoiadores.
Passaram-se alguns instantes e decidi que era hora de escrever.
O episódio em questão é de uma potência que realmente impressiona. Sou acadêmica, artista, pesquisadora. Flerto com teorias, estratégias, pedagogias, teses e leituras de contexto. Tenho andado às voltas com estudos sobre feminismo, antirracismo, branquitude e movimentos sociais, além de estar sempre atenta aos estudos das artes cênicas e cinematográficas, sobretudo no que diz respeito à dramaturgia e seus os elementos constituintes. E afirmo: o que Déia Freitas e sua equipe fazem é simplesmente genial. Ela é uma artista incrível.
Inteligente, ousada, intuitiva e perspicaz, ela une numa conversa supostamente improvisada os mais bem elaborados elementos do que atualmente se chama de story telling, que nada mais é do que a contação de uma história. Elementos genuinamente aristotélicos estão ali. Você tem uma protagonista que tem um objetivo e um grande obstáculo imposto por um antagonista. Déia, muito sabiamente, apresenta as informações numa ordem que equilibra a necessidade de nos manter informadas sem, no entanto, nos fazer adivinhar o que vem em seguida, mas apenas supor. Ela vai nos oferecendo, na medida perfeita, as informações que precisamos não apenas para conhecermos a história, mas (sobretudo) para nos aliarmos a ela e para nos solidarizarmos com a protagonista. Do ponto de vista do canal como um todo, ela organiza em temáticas as histórias que provocam uma mesma sensação em quem lê: “Picolé de Limão”, com histórias que nos deixam intrigadas e furiosas, “Amor nas redes” com histórias que nos envolvem a partir do amor romântico. A série “Luz Acesa” nos causa medo e curiosidade. “Mico Meu” nos faze rir da vergonha alheia (que já foi nossa um dia, provavelmente) e o “Patada” é para quem ama bichos. Com esses “pacotinhos” de histórias, a gente não corre o risco de tomar um café quente quando está com calor, ou de cair numa piscina num dia de frio. A gente sabe, minimamente onde ir buscar o quê.
A podcaster conseguiu construir pontes que nos ligam intimamente a ela e às demais ouvintes. São bordões que a gente primeiro reconhece e depois prevê, nos antecipando ao que virá: o “Oi, Genteeeeee” no começo de cada áudio, o “Não seja ONG de macho”, quando a história é sobre exploração financeira. “Não façam surpresa”, “Ai, gente, desculpa, mas não dá”. “Tem que pagar boleto, né, gente!” são algumas de suas pérolas constantes que já conhecemos e reproduzimos em nossas conversas.
Não dar nome às personagens que ela não gosta é outra estratégia que aos poucos vamos conhecendo, além do impagável conglomerado das Empresas Pônei (nome que ela dá a qualquer estabelecimento que não pode ser citado na história)
Com essas informações exclusivas para iniciados, ela nos transforma em parte de seu clã. De forma orgânica ela constrói seu “restrito” grupo de amigas íntimas, que é como nos sentimos. Não me parece ser uma construção apenas intuitiva. Sinto um alto grau de consciência e precisão no uso dessas estratégias e isso, em absoluto, representa um problema. Muito pelo contrário. É lindo ver uma profissional usar magistralmente as ferramentas de seu labor.
Mas nem era disso que eu ia falar ao ouvir TURBANTE. Eu ia falar justamente que tendo domínio da eficácia dessa operação, ela fica livre para ser quem ela é. E rir e chorar na nossa frente. Emocionar-se e se indignar, como quem olha em nossos olhos. E assim, finalmente, nos educar.

Aqui chego ao ponto principal deste “post-declaração de amor e gratidão”. O trabalho social que Déia Freitas faz. Com uma linguagem simples, com uma abordagem cotidiana, com altas doses de empatia e sororidade, sem teorizar, sem catequisar, sem oprimir e sem se fazer evidente (tampouco sem esconder, que é um processo pedagógico pessoal e coletivo e — insisto — uma revolução social) esse trabalho foi o que, de todos os meus estudos recentes, se mostrou mais eficaz e brilhante, mais humano e revolucionário.
Déia Freitas nos chama “na chincha” e sem papas na língua parece declarar: “Se não puder ajudar, não atrapalhe. Se não tem nada a acrescentar na luta por uma sociedade melhor, pelo menos não inviabilize a nossa luta, sob risco de, ao tomarmos consciência de suas intenções, darmos muita risada do quão ridículas são suas práticas, sua cara, sua existência”. E isso, acreditem, não é pouco.
Gratidão, Déia Freitas. Obrigada por (como tantas mestras e mestres) unir arte, entretenimento e transformação social num produto simplesmente impecável. Sugiro a todas e a todos. Mas, estejam preparadas. É um caminho sem volta.